domingo, 18 de maio de 2008

Deu no Globo Niterói


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Criatividade para viver da arte
Mercado concorrido faz com que desenhistas ofereçam caricaturas ao vivo em festas


Em comum — além de morarem em Niterói e estarem concorrendo com caricaturas no Salão Carioca de Humor —, Maria, Nico, Izidro e Adam reclamam que o mercado para desenhistas no Brasil é difícil. Alguns deles trabalham fazendo caricaturas ao vivo, pelas quais recebem de R$ 100 a R$ 150 por hora, em festas de casamento ou de empresas. — A falta de um mercado consolidado acaba tornando o profissional mais versátil. É uma característica do desenhista brasileiro ser polivalente e trabalhar com várias técnicas — observa Nico. Já Maria busca alternativas como artista plástica e, volta e meia, faz monitoria no Paço Imperial, recebendo o público quando uma nova exposição é inaugurada. — Esse trabalho me ajuda a vencer a timidez e me auxilia no processo criativo, já que estudo e aprendo sobre os artistas


Formado em Ciências Sociais pela UFF, Nico, de 25 anos, optou fazer de seus desenhos um trabalho político. Mestre em Ciências Políticas pela UFRJ, ele desenvolveu sua tese a partir de charges de Jeca Tatu e da identidade nacional presente na obra de Monteiro Lobato.Agora doutorando em Ciências Políticas na UFF, ele prepara sua dissertação estudando as charges da Segunda Guerra Mundial. — Procuro trabalhar o conteúdo antes de criar a charge. A política do nosso país é minha grande fonte de inspiração, e Lula, meu maior personagem — conta Nico, que iniciou sua carreira nos movimentos estudantil, partidário e sindical, foi pesquisador da Secretaria Nacional de Segurança Pública e, hoje, é professor estadual. O chargista já trabalhou no “Pasquim 21” e é autor de dois livros: “E agora, Lula? — Charges de um desastrado governo”, publicado em setembro de 2006; e “Henfil — O humor subversivo”, que será lançado em junho. — Jornais de movimentos sociais são minha principal janela. Faço charges de políticos, contra a corrupção. Costumo dizer que o chargista é o jornalista do traço — diz Nico.

Quando está com dificuldade de criar, Maria não tem dúvida: põe Astor Piazzolla para tocar no som de seu “quarteliê” — como apelidou o quarto onde dorme e faz seus desenhos —, no apartamento que divide com amigas, no Fonseca. — É bem dramático mesmo — comenta Maria, de 31 anos, que antes de começar a trabalhar também gosta de dançar. Formada em Belas-Artes pela UFRJ, ela alterna sua produção entre pinturas de óleo sobre tela e caricaturas em aquarela. Avessa a computadores, ela usa como ferramentas uma variedade de pincéis, tintas e um copo d’água. — Computador me dá tédio — diz Maria, que atualmente faz pós-graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea na Uerj. — A arte acaba puxando a filosofia — explica.

Maria conquistou o segundo lugar no Salão de Humor do ano passado com uma caricatura de Daiane dos Santos. Em 2007, venceu também o Salão Internacional de Humor de Caratinga (MG) e já foi premiada no Salão de Piracicaba (SP), um dos mais renomados do país



O artista visual Adam, de 24 anos, começou a se interessar por caricaturas nas aulas de desenhos de humor que teve na faculdade. — Não era bom em caricaturas, vivia sendo corrigido por meu professor e passei a me dedicar mais por uma questão de honra — brinca ele. — Tempos depois, participei de um concurso na faculdade e tirei primeiro lugar. Já o professor ficou em segundo. Para fazer uma caricatura como as que envia para os salões de humor, Adam demora cerca de uma semana. Primeiro, ele faz vários desenhos a lápis. Depois, escaneia todos, para, a partir daí, trabalhar as cores no computador. — Quando faço o desenho de um músico, gosto de ler sobre sua vida e obra, de ouvir suas músicas, para fazer algo que realmente tenha a ver com o artista — conta Adam, que prefere começar a caricatura pelo formato do rosto. — É onde posso brincar mais com a deformação anatômica.

O desenhista trabalha com caricatura ao vivo em festas e eventos, e já fez algumas exposições coletivas em galerias no Rio e em Niterói


O primeiro traço que faz na folha em branco é o dos olhos.

O caricaturista Izidro, de 29 anos, acredita que o olhar é que revela a identidade da pessoa.

— É a parte mais expressiva — diz.

Morador do Centro, o niteroiense começou a desenhar na escola, fazendo caricaturas dos colegas de turma e criando quadrinhos e tirinhas também. Autodidata, Izidro já desenhou para jornais de Rondônia e São Paulo. Atualmente, trabalha numa agência de publicidade e faz ainda eventos ao vivo, como festas de aniversário, casamentos e encontros de empresas.

— Para uma editora, criei um personagem chamado Palavrinha, uma pomba que está presente em todos os livros — comenta o ilustrador, que usa programas como photoshop e o corel paint.

É a segunda vez que Izidro se inscreve no Salão Carioca de Humor. O caricaturista também participa do Concurs Internacional d’Humor Gràfic Caragoler, na Espanha, e, entre os quase mil inscritos, já é um dos 50 melhores do mundo





fotos de Hipólito Pereira